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24/04 sexta-feira

CÂMARA MUNICIPAL
ITAPETINGA – BA

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24/04 sexta-feira

Audiência pública na Câmara debate autismo e aponta desafios e propostas para fortalecer rede de apoio em Itapetinga

A Câmara Municipal de Itapetinga realizou, nesta quinta-feira (23), audiência pública para discutir o tema “Autismo: autonomia se constrói com apoio”, reunindo famílias atípicas, profissionais de saúde e educação e representantes do poder público. A iniciativa, conduzida pelo vereador Anderson da Nova (União), teve como objetivo ampliar o diálogo sobre os desafios enfrentados pela comunidade autista no município e buscar encaminhamentos para o fortalecimento da rede de apoio.

Na abertura dos trabalhos, o parlamentar destacou o caráter participativo do encontro, ressaltando a importância da escuta das famílias e da construção coletiva de soluções. Em síntese, Anderson enfatizou que o cuidado com o autismo exige mais do que boa vontade, demandando estrutura, políticas públicas efetivas e atuação integrada entre saúde, educação e assistência social. Também apontou dificuldades enfrentadas no município, como filas de espera, necessidade de deslocamento para outros centros e interrupção de tratamentos, defendendo que esses entraves precisam ser superados para garantir direitos que, na prática, alcancem as famílias.

“Vocês não estão sozinhos ou sozinhas. Eu, vereador Anderson da Nova, estou com vocês nessa luta. Não é uma luta fácil, mas é uma luta necessária, porque cuidar de pessoas exige presença, e cuidar do autismo exige mais do que boa vontade: exige estrutura, compromisso e ação”, assegurou.

Estrutura das mesas de debate

A audiência foi organizada em duas mesas, contemplando diferentes perspectivas sobre o tema “Autismo: autonomia se constrói com apoio”.

A primeira mesa reuniu representantes de instituições ligadas à saúde, educação e formação acadêmica, abordando aspectos técnicos do atendimento e da inclusão. Contou com a participação do CER II/APAE (Centro Especializado em Reabilitação), representado pelo coordenador Patrick Giudice; do secretário de Planejamento, Antônio Freitas; da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), representada pelo professor Dimas Oliveira Santos; do IF Baiano, representado pelo pedagogo Jorge Viana dos Santos; da Rede Municipal de Educação, representada pela professora e especialista em AEE, Silvanilda Pinheiro; além de representantes de clínicas especializadas particulares do município.

As discussões giraram em torno dos desafios no atendimento multiprofissional, da necessidade de ampliação da oferta de serviços e da importância da formação continuada para profissionais que atuam com pessoas autistas.

Já a segunda mesa ampliou o debate para a garantia de direitos, segurança pública, assistência social e, sobretudo, para a escuta direta de pessoas autistas e familiares. Participaram representantes da Polícia Militar (8ª CIPM), com o subtenente Reis; do Conselho Tutelar, com o conselheiro Leonardo Ferreira de Souza; do CMDCA e da IPAM, representados pela presidente Haiala Tamburi Coqueiro; da Secretaria Municipal de Saúde, com a diretora de Atenção Especializada, Karine Benevides Anunciação; da Secretaria de Desenvolvimento Social, representada pela psicóloga do CRM, Caroline Ferraz; do NTE-08, com a professora de AEE Rosana Moreira Novais Silva; da Coordenação de Educação Especial Municipal, com Ediane Barreto Oliveira; do grupo “Vamos Falar Sobre Autismo”, representado pelas mães atípicas Angélica Santos Santana, Viviane Carvalho e Silvana Santos da Silva; além de Robério Silva Santos, do Gape; Alana Santos Alves Gama, biomédica e autista nível 2; e atletas atípicos, representados pela professora e corredora Érica Margarida. O espaço foi marcado por relatos de vivências e pela apresentação de demandas concretas.

Desafios na rede de atendimento

Durante os debates, foi evidenciado que o Centro Especializado em Reabilitação atende a uma macrorregião com mais de 20 municípios, o que contribui para longas filas de espera e sobrecarga dos serviços. Profissionais destacaram que a intervenção precoce é fundamental e não deve ser condicionada ao fechamento do diagnóstico, sendo decisiva para o desenvolvimento da autonomia.

Outro ponto levantado foi a lacuna no atendimento de adolescentes autistas, já que parte dos serviços se concentra na infância, deixando famílias sem suporte em fases posteriores do desenvolvimento. Na educação, foram reconhecidos avanços com o Atendimento Educacional Especializado (AEE) e salas multifuncionais, mas também foram apontadas dificuldades, como a necessidade de adaptação curricular constante e maior preparo das equipes escolares.

Representantes do ensino superior reforçaram a importância de ambientes mais inclusivos e da qualificação permanente de professores para lidar com a neurodiversidade, alertando que a inclusão escolar deve ser acompanhada de suporte adequado, evitando prejuízos ao desenvolvimento dos estudantes.

Relatos das famílias e pessoas autistas

Mães compartilharam relatos emocionantes sobre o isolamento social, o esgotamento físico e mental e a dificuldade de manter tratamentos devido ao alto custo das clínicas particulares (que podem variar de R$ 600 a R$ 800 mensais por especialidade).

Surgiu uma forte demanda por políticas públicas voltadas à saúde das mães, muitas vezes “mães solo”, que abandonam suas vidas e carreiras para se dedicar integralmente aos filhos. As falas também evidenciaram o cotidiano de vigilância constante, o enfrentamento do julgamento social e a falta de tempo para cuidados básicos com a própria saúde.

“Os nossos filhos podem até não falar, mas têm quem fale por eles”, destacou Silvana Silva, mãe atípica e integrante do grupo “Vamos Falar Sobre Autismo”.

Alana Santos Alves Gama, autista adulta nível 2, trouxe a perspectiva do esforço diário necessário para lidar com sobrecargas sensoriais, como luzes, sons e trânsito, além da responsabilidade de cuidar de filhos também autistas.

“E eu não pareço autista, é sempre o que eu ouço. Mas eu sinto dores diariamente. E eu tenho que estar bem porque preciso cuidar dos meus filhos”, relatou.

Segurança e acessibilidade

O subtenente Reis, da Polícia Militar, abordou o impacto do som alto para autistas com hipersensibilidade auditiva, destacando a importância de ações como a “Operação Paredão” para garantir maior tranquilidade às famílias.

Também foi apresentado, por Robério Santos, do Grupo de Apoio a Pessoas Especiais (Gape), o projeto de placas de identificação para residências de pessoas autistas, com o objetivo de sensibilizar a comunidade sobre a necessidade de ambientes mais silenciosos e acolhedores.

Encaminhamentos e propostas

O evento não se limitou às discussões e resultou na apresentação de encaminhamentos com foco em ações concretas. Entre eles, destacam-se o incentivo à criação de uma associação representativa das famílias atípicas, o fortalecimento de políticas públicas específicas e a elaboração de projetos voltados à inclusão.

Também foram mencionadas propostas como a implantação de uma praça sensorial no Parque Poliesportivo, a criação de programas de apoio às famílias, a ampliação da rede de atendimento em saúde mental — incluindo um CAPS infantojuvenil — e a regularização da oferta de medicamentos na rede pública.

Durante o evento, o vereador Anderson da Nova realizou a entrega da Moção de Aplauso e Congratulação nº 133/2025 à atleta Érica Margarida Santos Costa, em reconhecimento à sua dedicação ao esporte como instrumento de saúde, superação e qualidade de vida, além de representar com honra o nome de Itapetinga nas corridas realizadas no município e em toda a região.

A audiência pública foi transmitida ao vivo pelo canal oficial da Câmara no YouTube, onde permanece disponível para acesso. O encontro encerrou-se com a defesa de que a inclusão e o cuidado com pessoas autistas devem ser tratados como compromisso permanente do poder público e de toda a sociedade.